O antes endinheirado futebol chinês vive uma das maiores crises de sua história. Por conta de escândalos relacionados a corrupção, a Federação de Futebol da China (ACF) anunciou o banimento vitalício de 73 pessoas do esporte, incluindo treinadores, presidentes e investidores. E os clubes também pagam o preço na temporada que se inicia em março.
Por conta dessas questões, 11 das 16 equipes da primeira divisão sofreram punições, sendo oito com redução de pontos para a Super Liga Chinesa de 2026. O antes país dos grandes investimentos no esporte e craques mundiais se tornou um lugar de nomes menos badalados. O que segue como regra são as polêmicas e os escândalos.
Um plano falível
O futebol só começou a se desenvolver na China na década de 90, 60 anos depois da profissionalização do esporte no Brasil, por exemplo. De volta nas organizações internacionais, como a Fifa e o Comitê Olímpico, o governo chinês começou a investir e organizou alguns planos que focavam em desenvolvimento e comercialização do futebol, na onda da abertura econômica do país. A ideia era dar independência aos clubes, aos investidores e à federação.
Os primeiros anos da reforma foram animadores: as receitas econômicas aumentaram e praticamente todos os clubes levavam nomes de grandes empresas. Mas a seleção continuou falhando, sem os resultados esperados. Foi nessa onda que, com a chegada de novos investidores e empresários, o futebol chinês passou por uma segunda reforma no início do século XXI, que transformou uma abordagem quase amadora em um verdadeiro oásis. Já uma força nos esportes olímpicos, a China queria colocar o futebol nos holofotes.
A Super Liga Chinesa começou em 2004 e sempre conviveu com escândalos econômicos. A partir de 2010, com a criação de uma comissão anti-corrupção, o futebol pareceu tomar um caminho mais concreto: nomes como Drogba e Conca chegaram para jogar, enquanto Beckham se tornou o embaixador global do torneio. Mas a parte econômica continuou repleta de polêmicas. Em 2013, 58 pessoas foram banidas do futebol pelos mesmos problemas de 2026.
Com a ascensão de Xi Jinping no governo chinês, o esporte se tornou uma prioridade ainda maior. Em 2015, um programa geral foi estabelecido em três etapas. As propostas envolviam criação de dezenas de milhares de escolas de futebol, o incentivo do esporte entre estudantes e a melhoria das instalações. O objetivo era ter as seleções masculina e feminina entre as melhores do mundo até 2050. Foi quando Hulk, Lavezzi e Oscar chegaram ao país, com três dos dez maiores salários do mundo. Mas a debandada não demorou a vir.
A realidade é que poucos atletas foram se aventurar no país e, sem o resultado econômico esperado, o investimento no futebol se tornou um prejuízo bilionário. Passados mais de dez anos do grande plano, a seleção chinesa ocupa a 90ª colocação no ranking da Fifa e não atingiu qualquer conquista. Os super salários continuaram uma realidade, mas, aos poucos, a federação passou a intervir e criar regrar para favorecer os futebolistas locais. Com a pandemia, porém, tudo degringolou.
Sem receitas de publicidade e bilheteria, muitos clubes faliram. Equipes como Jiangsu Suning e Guanghzou Evergrande sofreram com as questões econômicas e hoje simplesmente não existem mais. O dinheiro dos empresários e os investimentos massivos rapidamente desapareceram. E os escândalos cresceram exponencialmente, com o novo futuro, de menos investimentos e alarde, ameaçado.
Corrupção não sai do palco
O governo chinês seguiu ríspido em relação a escândalos no futebol. A política anti-corrupção é uma forma de tentar renascer aquele que, por pouco tempo, foi um dos centros mais ativos no esporte mundial, enquanto a Arábia Saudita conseguiu tudo que a China sempre quis: ser uma liga de grandes nomes e sediar uma Copa do Mundo. Mas a situação parece ter chegado ao seu pior nível em solo chinês.
Em janeiro de 2026, a federação chinesa baniu 73 pessoas do futebol para sempre. Nessa onda, nomes como Li Tie, ex-jogador da Premier League pelo Everton e técnico da seleção entre 2019 e 2021, foram sancionados. O técnico já cumpre prisão de 20 anos por suborno, após condenação em 2024. Chen Xuyuan, ex-presidente da ACF entre 2019 e 2023, está em pena perpétua por suborno de mais de R$ 57 milhões e também foi banido.
Quem também paga o preço são os clubes. Dos 16 times que disputam a Super Liga Chinesa, 11 sofreram com multas ou redução de pontos. Atual tricampeão, o Shanghai Port começará a edição de 2026 com cinco pontos a menos. Shanghai Shenhua, ex-casa de Tim Cahill, Tévez e Hernán Barcos, sofreu dedução de dez pontos. Tianjin Jinmen Tiger, Beijing Gouan, Qingdao Hainiu, Shandong Taishan, Henan FC, Zhejiang FC e Wuhan Three Towns também começarão o campeonato de 2026 “negativados”.
Em entrevista exclusiva ao oGol, Zeca, atacante do Shandong Taishan, ressaltou que o futebol chinês não é mais a mesma coisa que foi na década passada. Em contrapartida, o jogador fez questão de ressaltar que a vida esportiva no país ainda é boa financeiramente, mesmo com todos esses entraves.
“É muito atrativo porque você vai viver uma vida muito boa, você vai receber muito bem, receber em dia. No Shandong não dá para mensurar. É uma estrutura surreal. Anos atrás, os caras chegaram a pagar bônus inacreditáveis por vitórias. Mas os ‘super salários’ já não são uma realidade”, pontuou o atacante.
Novos craques na China
Zeca é um dos cerca de 520 jogadores inscritos para a Super Liga Chinesa de 2026, que se inicia em março. São 76 estrangeiros, sendo 22 brasileiros. Nomes como Mateus Vital, Rafael Ratão, Wesley Moraes, Jeffinho, Iago Maidana, Guilherme Madruga, Wellington Silva e Lucão disputarão o campeonato asiático.
Os brasileiros são maioria, depois dos chineses, claro. Os mais numerosos, na sequência, são os portugueses e os espanhóis, com cinco jogadores cada, mas sem nomes conhecidos no futebol mundial. A grande realidade é que o futebol é outro na China.
Em 2025, quatro jogadores brasileiros estiveram na seleção da Super Liga Chinesa. São eles Felipe Silva e Rômulo, atacantes que estão no Chengdu Rongcheng desde 2021, e Mateus Vital e Leonardo, que defenderam o Shanghai Port. Fábio Abreu, atacante angolano do Beijing Guoan, foi o artilheiro do torneio.
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